Por Cristina Charão - Observatório do Direito à Comunicação - 26/02/2008 - www.direitoacomunicacao.org.br
A criação de cotas para a produção audiovisual nacional e independente é o mecanismo mais imediato para reverter a sobre-representação do conteúdo estrangeiro na televisão. Defendida por produtores independentes e pelo Ministério da Cultura como forma de estímulo real à abertura de um mercado hoje bastante restrito, as cotas estão previstas no relatório do deputado Jorge Bittar (PT-RJ) sobre o Projeto de Lei 29, que regulamenta os serviços de acesso condicionado, como a TV por assinatura.
Apesar de o relatório sequer ter sido votado, a campanha contrária à criação de reserva de tempo nas programações e de canais dentro dos pacotes para produção nacional já é forte. Desde dezembro, a Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA) veicula peças publicitárias afirmando que as cotas restringem a liberdade de escolha dos assinantes. Demonstrando disposição para bancar a aprovação das cotas, Bittar diz que a campanha da ABTA é antiética e mentirosa.
“Nunca houve ruptura do diálogo com nenhum setor da sociedade. Estávamos em pleno diálogo quando a campanha foi lançada”, diz o deputado. “Além disso, a campanha é mentirosa. Diz que nós vamos tolher o direito de escolha do assinante do serviço quando hoje é que não há direito de escolha, pois o assinante compra um pacote previamente estabelecido pelo programador.”
Para o secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Silvio Da-Rin, é importante que os atores organizados do setor façam uma discussão pública do tema. “No entanto é preciso não confundir a necessária regulação do setor com o cerceamento de liberdade. No campo cinematográfico, por exemplo, já existem mecanismos de cota para assegurar espaço à produção nacional, a exemplo da cota de tela”, lembrou.
Em geral, as programações oferecidas aos assinantes privilegiam a produção audiovisual estrangeira, especialmente nos canais de filmes e entretenimento. Segundo dados da Agência Nacional do Cinema, menos de 2% da programação destes canais é destinada a filmes nacionais e apenas 0,5% das obras exibidas são brasileiras.
Para Marco Altberg, conselheiro legislativo da Associação Brasileira de Produtoras Independentes de Televisão (ABPI-TV), esta situação remete ao modo como a TV foi constituída no país. “A TV por assinatura é apenas um reflexo de um problema maior que é a forma como a TV aberta comercial se desenvolveu no país, especialmente no tocante ao conteúdo independente, na ausência da regionalização e, em muitos casos, na ausência de compromisso com a cidadania e com a qualidade. De outro lado, precisamos considerar a história de privatização do espaço público no Brasil e a ausência de ambiente economicamente democrático,”, comentou.
A avaliação é corroborada por Da-Rin: “Esse modelo da TV aberta, que tem como uma de suas balizas a concentração da produção e da difusão de conteúdo nas mesmas empresas, restringiu o desenvolvimento da produção independente de televisão no Brasil, ao contrário do que se deu em outros países, como os EUA, no qual a maior parte do conteúdo televisivo vem de produtores independentes.”
Produção e demanda
Apesar das restrições, a produção audiovisual brasileira cresce em quantidade e qualidade, na avaliação de Silvio Da-Rin. Ele destaca o lançamento, em 2007, de 82 longas-metragens e o progressivo aumento das co-produções entre canais por assinatura e a produção independente brasileira, incentivada através do art. 39 da Lei do Audiovisual.
Este incentivo, segundo Altberg, tem feito da TV por assinatura uma melhor parceira da produção independente. No entanto, a composição dos pacotes de canais ofertados hoje – “com uma enxurrada de canais estrangeiros” – impede avanços. “Existe um incentivo à co-produção, mas isso ainda não representa algo considerável como estímulo à produção aqui no Brasil”, disse o consultor da ABPITV.
Do lado da demanda, a avaliação de Da-Rin é de que ela é evidente. “Basta observarmos os índices de audiência dos programas da televisão aberta”, disse o secretário, acrescentando que mesmo os índices de audiência na TV paga mostram esta preferência. No levantamento feito pela Ancine, comparando apenas canais por assinatura, os primeiros colocados no ranking do número de espectadores por dia são ou canais nacionais, ou aqueles em que a programação é dublada.
Para o secretário, assim como para Altberg, o problema está em fazer a produção encontrar esta demanda. “A questão que se impõe é a mesma: a dificuldade de levar conteúdo independente ao público brasileiro, tanto em relação à produção cinematográfica nacional, que anualmente produz uma quantidade considerável de horas de programação, quanto à produção independente de televisão, que necessita justamente de espaço para se desenvolver”, afirmou Da-Rin.
Quais cotas?
A saída estaria na criação das cotas. A proposta de Jorge Bittar para o PL-29 cria cotas em dois níveis: na programação dos canais e nos pacotes de canais. Há ainda um terceiro tipo de exigência cruzada.
A primeira cota é a de 10% para a produção nacional independente em todos os canais distribuídos no país. Segundo Altberg, esta deve ter maior impacto para o mercado dos produtores. Isso porque fortalece as produtoras independentes, ou seja, aquelas que não têm ligação com os canais ou as programadoras. Até hoje, o modelo de negócio de TV no Brasil privilegia a produção interna.
A segunda estabelece que metade dos canais oferecidos em um pacote tem de ser nacionais. Há, ainda, a exigência de que no mínimo 30% destes sejam canais independentes, ou seja, não sejam programações montadas por empresas ligadas nem à empacotadora (a empresa que monta os pacotes de canais), nem à distribuidora (que é a dona da infra-estrutura de distribuição e compra os pacotes para vender aos assinantes). Os canais independentes podem produzir todos os programas que vai colocar na sua grade.
A terceira cota cruza exigências quanto à característica dos canais e também da produção dos programas. A proposta é que 30% dos canais ofertados em um pacote devem ter pelo menos 50% de produção nacional, sendo a metade desta (ou seja, 15% do total) realizada por produtores independentes.
A previsão do relator é que o PL-29 seja apreciado pela Comissão de Comunicação, Ciência e Tecnologia e Informação no mês de março.
Outros incentivos
Marco Altberg e o deputado Jorge Bittar concordam que a criação das cotas não pode ser a única medida para promover a diversidade no mercado audiovisual. “A idéia da cota não pode ser vista como um fim em si mesmo. É uma forma de estímulo, mas certamente precisamos aliá-las ao fomento e ao desenvolvimento da produção nacional. Por isso, agregamos ao projeto um fundo de R$ 350 milhões anuais”, explicou Bittar.
O dinheiro viria do deslocamento das taxas que compõe o Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel), pagas pelas empresas de telecomunicações e radiodifusão, para o Fundo Setorial do Audiovisual.
O conselheiro da ABPITV lembra que, em outros países, há exigências quanto à regionalização da produção e incentivos reais à co-produção. “Na Europa e no Canadá, a TV por assinatura acaba sendo uma parceira do cinema”, disse. Assinalando que também não se pode deixar de pensar na TV aberta, Altberg comenta que, em muitos países, as TVs públicas são alternativas ao modelo de TV comercial.
No Brasil, no que diz respeito à TV aberta, a Constituição Federal prevê a promoção da regionalização da produção e a valorização da produção independente. Porém, estes artigos constitucionais jamais foram regulamentados.
Colegas, vocês sabiam desse assunto? O que mais tem a dizer sobre ele? O que isso impacta na televisão e no telejornalismo? O que tem com suas carreiras?
domingo, 9 de março de 2008
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5 comentários:
Eu havia lido algo sobre o assunto, mas bem superficialmente. Nada muito aprofundado ainda.
A proposta é boa. Incentiva a produção independente nacional e nos dá mais opções de escolha. Entretando não sou a favor de criação de cotas, em qualquer área que seja. Acredito que a conscientização da sociedade é que deveria ser focada. Precisamos dar mais valor ao produto nacional, sem necessidade de 'forçar a barra'.
Com essas medidas, os produtores saem no lucro. Produzem mais e podem ter um retorno, um reconhecimento maior. Mas a televisão que visa os lucros, vai ter problemas em se ajustar. Pois já tem toda uma estrutura organizada e pacotes fechados de acordo com o que o telespectador mais compra.
Mas como já disse em outros comentários, sae for pra melhorar, toda experiência vale a pena.
E isso pode gerar novas oportunidades para os profissonais da área de comunicação, que poderiam contar com um número maior de produções brasileiras.
Já estão jogando poeira em um projeto interessante como esse de cotas para a produção de audiovisuais independentes. A Tv por assinatura está gastando dinheiro com vídeo publicitário contra o projeto. Será que não tem nada melhor para fazer com esse dinheiro? O presidente do Congresso Brasileiro de Cinema, Paulo Rufino, contesta não ter um canal para poder replicar as questões da TV por assinatura. Um texto foi entregue aos deputados comprovando que uma porcentagem muito baixa de filmes brasileiros são transmitidos pelas empresas de Tv por assinatura. É necessário difundir a cultura nacional o que aconteceria com as cotas para produções de audiovisuais. Principalmente agora que o cinema brasileiro está se destacando com filmes muitos bons como "Meu nome não é Jonhy", "Tropa de Elite", "O cheiro do ralo", "Zuzu Angel", "Olga"...
O Brasil está mostrando que em relação á cinema e programação áudio-visual, está melhorando muito a qualidade e a quantidade produzida.
Apesar disso, ainda há um enorme precoceito com produções nacionais e independentes sobretudo da Tv paga.
Isso acontece devido ao fato e eles não acharem que esse tipo de produção irá "vender", e preferem priorizar o conteúdo que vende muito que é o internacional, pricipalmente o Hollyoodiano.
Nós como telespectadores, devemos prestar mais atenção no que estão nos vendendo.
Acredito que essas cotas poderiam ser até medidas provisórias, assim educaria o público e mostraria que o o que é produzido no Brasil pode ser muito bom.
Ontem dia 7/04 o deputado federal Jorge Bittar recuou em sua proposta inicial e propôs uma nova redação para o projeto de lei 29. Ele analisou 145 emendas ao projeto inicial. O que se percebe é que a pressão, pricipalmente da Globo e das operadoradoras de Tv a cabo, surtiram efeito. Na nova redação, as cotas foram reduzidas em até 50%, em alguns casos( abaixo o texto).A iniciativa de se criar cotas para privilegiar a produção nacional é uma boa atititude. A nossa programação está "inflada" por produções estrangeiras( principalmente EUA) de baixa qualidade. São os enlatados americanos que invadiram a programação, em especial a TV por assinatura. A cotização vai permitir uma maior produção e divulgação dos contúdos nacionais
Por outro lado também poderá abrir o mercado para os profissionais de comunicação e audiovisual. Com a lei aprovada, as programações terão
que reservar uma faixa para os produtos brasileiros. O projeto de lei também impactaria na melhoria do mercado também para os jornalistas e outros profissionais da comunicação.
Marcelo Rocha
Cristina Charão e Diogo Moyses, para o Observatório do Direito à Comunicação
07.04.2008
Cota transversal de conteúdo brasileiro
Todos os canais com conteúdo majoritariamente qualificado (filmes, seriados, novelas, reality shows) terão de exibir 3h30 semanais de conteúdo brasileiro, cuja definição agora exclui as co-produções. Originalmente, o texto previa uma porcentagem do horário nobre. Segundo o novo relatório, as 3h30 equivalem aos 10% previstos na proposta original.
Destas 3h30, metade “deverá ser produzida por produtora brasileira independente”. Originalmente, toda a cota era destinada a produções independentes. Segundo o texto de justificativa apresentado por Bittar, esta previsão dá mais “liberdade à programadora no preenchimento da grade“, usando conteúdo de “produtoras consideradas não independentes – inclusive radiodifusores”.
A nova versão cria duas exceções à regra: os canais não-direcionados a brasileiros (transmitidos sem dublagem ou legenda) e o chamados canais pan-regionais, cujo sinal único é transmitido para vários países (por exemplo, para toda a América do Sul). No segundo caso, caberá à Agência Nacional do Cinema (Ancine) avaliar se há ou não condições técnicas para que a programadora cumpra as cotas.
Outra novidade é a permissão para a compensação das cotas de conteúdo entre os canais de um mesmo grupo empresarial.
Cota de canais brasileiros
A nova proposta é mais restrita e detalhada: 25% dos canais que compõem um pacote deverão ser brasileiros, sendo que 1/3 deles criados por programadores independentes. Ou seja: uma única empresa poderá ter, no máximo, 2/3 da cota de canais nacionais.
Para um canal ser considerado brasileiro, terá de veicular 8 horas diárias de produção nacional, sendo 4 horas em espaço qualificado. Dessa última parcela, 2 horas deverão ser veiculadas no horário nobre, sendo que 1 hora desta programação terá de ser produzida por independentes.
Bittar também introduz um limite para as cotas: 10 canais nacionais, sendo 3 deles independentes. Ou seja, num pacote hipotético com 50 canais, a obrigação da operadora é oferecer não 12 canais BR, mas apenas 10.
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